quinta-feira, 19 de junho de 2008

Moi, non plus

Às vezes gostaria de me sentir a pessoa mais horrível na face da terra, mas não sinto. Deve ser do orgulho que dizem ser forte. Ou da maldita razão, da mania de conseguir sempre justificar tudo, de me sentir dona da minha verdade.
Magoo os outros e não é isso que me faz voltar atrás. Não cedo no meu não querer e quando não tenho o que quero não me sinto frustrada por muito tempo. Sinto-me uma espécie de enguia: escorregadia, difícil de agarrar, sempre em movimento.
Apareceste a meio da noite para declarar o teu amor. Não abdiquei do meu sono. Não me sensibilizei com o teu sentimento, não inventei um meu. Disse o que sentia, com toda a lucidez própria da sonolência, com todas as palavras nuas, despojadas de ornamentos: não sinto o mesmo por ti.
De manhã olhavas-me triste, sentado no canto da cama que apenas dividimos. Eu senti a tua tristeza e sinto-a, também com tristeza, mas não sinto o mesmo por ti.
Ultrapassámos o limite do conhecimento que permite amar. Mas sinto-te amigo, embora não aceite o teu amor. Talvez estejas a confundir a amizade aberta, livre de deveres de cerimónia e de falsas solidariedades, com esta liberdade de nos odiarmos metade do dia e de nos gostarmos na outra, sem nos sentirmos culpados por isso. Talvez estejas com vontade de te sentir menos só, nas tuas horas que me parecem sempre tão monocórdicas. Mas não posso fingir que te amo, porque não merecemos este engano.

4 comentários:

Silvestre Raposo disse...

Sofia quem dira...quem lê vai pensar até, que parece romance autobiografico...com alguem que amaste e já não amas...soa a recado a esse alguem, mas que outro alguem, irá ler...
mas... escreves bem, és sincera e gosto...
beijo

isabel disse...

é bom ter a noção do limite do conhecimento que permite amar.

hoje, deixo-te um beijo. enguia :)

Sofia disse...

Por acaso nada tenho contra os romances autobiográficos. Lamentando desiludir os meus assíduos leitores, os meus dias têm 24 horas, porque não haveria de aproveitar o que neles acontece para fazer as minhas histórias? Não estamos em época de reciclagem?
Recado não é... já disse que os meus estados de sonolência conduzem-me à pureza da costela de Adão... desagradável, eu sei. Afinal Eva faz sempre falta, não é?
Um dia li um livro de um tipo que se propôs escrever tudo o que lhe passava pela cabeça, durante um ano. No mínimo, achei corajoso. Gostaria de um dia atingir esse despreendimento, por uma única razão: liberta.
E Isabel, acho que a minha luta com o amor reside essencialmente aí: teoricamente o conhecimento profundo facilitaria o amor; Na prática, impede. Mas todos temos os nossos limites e os meus possivelmente são maiores que os dos outros.

AC disse...

Incrivel não ser auto-qualquer-coisa, conseguiste criar e enriquecer um leque de sequencias vulgares, com uma proximidade impressionante.

Bom post

Beijo