domingo, 16 de outubro de 2011

Cadeia de Valor - o estabelecimento prisional universal











Tudo começou com a vergonha de Adão e Eva. Com o crescente distanciamento da espécie humana das restantes espécies. Com a necessidade de a proteger, num instinto de sobrevivência e propagação a que chamamos evolução.
A cobertura das partes erógenas do corpo foi o início. A procura de protecções cada vez mais resistentes e duráveis e a negação da partilha com os seus consumidores. A posse estendeu-se aos bens alimentares e aos materiais e acessórios necessários ao seu fabrico e armazenamento. Nasce a noção de equilíbrio: a promoção do útil, a eliminação do inútil e a partilha com aqueles que podem incrementar valor ao processo. Os restantes são impedimentos: indesejáveis e alvos a abater. Surgem as primeiras lixeiras, contemporâneas ao primeiro homem.
Não há retrocesso nesta evolução. Estamos todos dependentes dos objectos que escravizam todos: a nós próprios, aos outros seres e até mesmo ao que se chama a anti-matéria.
Criámos uma economia baseada no consumo de tudo: bens essenciais e não essenciais. Organizámos, legislámos, criámos uma ordem tão promíscua, que regula a vida e a morte. Nada nasce sem ser consentido, nada morre sem ter um destino. Os incumprimentos são antinaturais e não têm direito à vida.
Mesmo que ande nua, que apenas me alimente do que espontaneamente nasce nos míseros hectares a que chamamos "virgens", continuo a fazer parte da cadeia de valor de alguém, de algum território, da espécie humana. Não nos conseguimos libertar da propriedade.
Vou morrer proprietária e com a angústia de ter escravizado o mundo em busca de mais um incremento à minha posse. É por isso que me sinto tão humana, sem orgulho nisso, pois tenho a consciência que sou efectivamente a ovelha negra do universo. E quando finalmente formos dizimados, por nós próprios ou por uma qualquer força da Deusa Natureza, não vou ter pena de deixar de existir, será a minha carta de aforria ao mundo. Devo-Lhe, devemos-Lhe isso.
Enquanto isso, continuo humanamente viva, na segurança da cela que legalmente me pertence, a contribuir para a cadeia de valor da humanidade.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Sons

Gestos, sorrisos, movimentos do corpo, emoções partilhadas. Pequenos momentos em que o entendimento é perfeito. Não quero conhecer mais do que vejo e oiço. São as minhas ilusões.
Como neste momento.

Pedras

As pedras têm a sua vida e eu a minha; quando passamos umas pelas outras se calhar interagimos, mas não são relações para cultivar e isto é difícil as pessoas perceberem: fazemos todos parte da vida e interagimos espontaneamente: as nossas relações são ocasionais, circunstanciais e de carácter não permanente. E garanto que as pedras me agradecem. Com que direito retiram-nas do seu habitat e as prendem, para "comunicar", "interagir"?!