Tudo começou
com a vergonha de Adão e Eva. Com o crescente distanciamento da espécie humana
das restantes espécies. Com a necessidade de a proteger, num instinto de
sobrevivência e propagação a que chamamos evolução.
A cobertura das partes erógenas do corpo foi o início. A procura de protecções cada vez mais resistentes e duráveis e a negação da partilha com os seus consumidores. A posse estendeu-se aos bens alimentares e aos materiais e acessórios necessários ao seu fabrico e armazenamento. Nasce a noção de equilíbrio: a promoção do útil, a eliminação do inútil e a partilha com aqueles que podem incrementar valor ao processo. Os restantes são impedimentos: indesejáveis e alvos a abater. Surgem as primeiras lixeiras, contemporâneas ao primeiro homem.
Não há retrocesso nesta evolução. Estamos todos dependentes dos objectos que escravizam todos: a nós próprios, aos outros seres e até mesmo ao que se chama a anti-matéria.
Criámos uma economia baseada no consumo de tudo: bens essenciais e não essenciais. Organizámos, legislámos, criámos uma ordem tão promíscua, que regula a vida e a morte. Nada nasce sem ser consentido, nada morre sem ter um destino. Os incumprimentos são antinaturais e não têm direito à vida.
A cobertura das partes erógenas do corpo foi o início. A procura de protecções cada vez mais resistentes e duráveis e a negação da partilha com os seus consumidores. A posse estendeu-se aos bens alimentares e aos materiais e acessórios necessários ao seu fabrico e armazenamento. Nasce a noção de equilíbrio: a promoção do útil, a eliminação do inútil e a partilha com aqueles que podem incrementar valor ao processo. Os restantes são impedimentos: indesejáveis e alvos a abater. Surgem as primeiras lixeiras, contemporâneas ao primeiro homem.
Não há retrocesso nesta evolução. Estamos todos dependentes dos objectos que escravizam todos: a nós próprios, aos outros seres e até mesmo ao que se chama a anti-matéria.
Criámos uma economia baseada no consumo de tudo: bens essenciais e não essenciais. Organizámos, legislámos, criámos uma ordem tão promíscua, que regula a vida e a morte. Nada nasce sem ser consentido, nada morre sem ter um destino. Os incumprimentos são antinaturais e não têm direito à vida.
Mesmo que
ande nua, que apenas me alimente do que espontaneamente nasce nos míseros
hectares a que chamamos "virgens", continuo a fazer parte da cadeia
de valor de alguém, de algum território, da espécie humana. Não nos conseguimos
libertar da propriedade.
Vou morrer
proprietária e com a angústia de ter escravizado o mundo em busca de mais um
incremento à minha posse. É por isso que me sinto tão humana, sem orgulho
nisso, pois tenho a consciência que sou efectivamente a ovelha negra do
universo. E quando finalmente formos dizimados, por nós próprios ou por uma
qualquer força da Deusa Natureza, não vou ter pena de deixar de existir, será a
minha carta de aforria ao mundo. Devo-Lhe, devemos-Lhe isso.
Enquanto isso, continuo humanamente viva, na segurança da cela que legalmente me pertence, a contribuir para a cadeia de valor da humanidade.
Enquanto isso, continuo humanamente viva, na segurança da cela que legalmente me pertence, a contribuir para a cadeia de valor da humanidade.