segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Tu, eu e o fim


Tu e eu somos assim
Vivo eu
E tu através de mim.
E
As lágrimas
Que irás esconder
No mar
As palavras
Que irás soprar
No vento
O beijo
Que irás manter
Em pensamento
O desprezo no desespero
Do grito
Quando te perderes em mim
Revelarão o silêncio
A arma com que escondo a minha culpa
A que chamo dignidade.
Será assim,
Quando tu e eu
Tivermos um fim.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Antes o Vôo da Ave

Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLIII"

sábado, 5 de novembro de 2011

Duas mãos, uma estrada

Juntemos as mãos. O entrelaçar dos nosso dedos espelha o corpo que tomamos, fala nas palavras que formamos. A vida que somos mistura-se nas cores das coisas, nos sons do espaço que habitamos. Os cheiros que nos perfumam abrem caminhos sem dor, que percorremos sem cansaço.
Soltemos lágrimas sem tristeza e riso sem contentamento, numa existência não qualificada. Sejamos alegria e desalento, numa total nudez sem remorso. Amemo-nos sem a denúncia de o fazer, na negação necessária à felicidade, acompanhando a inconstância do perpétuo movimento.
Danço a música que és, a vida que sentes. E não me denuncio.
E eis que nasce o dia.
De mãos vazias, dou vida ao vazio do nada. Construo a minha estrada, ao ritmo dos sons que interpreto, que reconheço, vindos das profundezas da memória. Nada sou senão estímulo. E parto cada dia de um ponto diferente, rumo à floresta encantada que tenho pela frente.

domingo, 16 de outubro de 2011

Cadeia de Valor - o estabelecimento prisional universal











Tudo começou com a vergonha de Adão e Eva. Com o crescente distanciamento da espécie humana das restantes espécies. Com a necessidade de a proteger, num instinto de sobrevivência e propagação a que chamamos evolução.
A cobertura das partes erógenas do corpo foi o início. A procura de protecções cada vez mais resistentes e duráveis e a negação da partilha com os seus consumidores. A posse estendeu-se aos bens alimentares e aos materiais e acessórios necessários ao seu fabrico e armazenamento. Nasce a noção de equilíbrio: a promoção do útil, a eliminação do inútil e a partilha com aqueles que podem incrementar valor ao processo. Os restantes são impedimentos: indesejáveis e alvos a abater. Surgem as primeiras lixeiras, contemporâneas ao primeiro homem.
Não há retrocesso nesta evolução. Estamos todos dependentes dos objectos que escravizam todos: a nós próprios, aos outros seres e até mesmo ao que se chama a anti-matéria.
Criámos uma economia baseada no consumo de tudo: bens essenciais e não essenciais. Organizámos, legislámos, criámos uma ordem tão promíscua, que regula a vida e a morte. Nada nasce sem ser consentido, nada morre sem ter um destino. Os incumprimentos são antinaturais e não têm direito à vida.
Mesmo que ande nua, que apenas me alimente do que espontaneamente nasce nos míseros hectares a que chamamos "virgens", continuo a fazer parte da cadeia de valor de alguém, de algum território, da espécie humana. Não nos conseguimos libertar da propriedade.
Vou morrer proprietária e com a angústia de ter escravizado o mundo em busca de mais um incremento à minha posse. É por isso que me sinto tão humana, sem orgulho nisso, pois tenho a consciência que sou efectivamente a ovelha negra do universo. E quando finalmente formos dizimados, por nós próprios ou por uma qualquer força da Deusa Natureza, não vou ter pena de deixar de existir, será a minha carta de aforria ao mundo. Devo-Lhe, devemos-Lhe isso.
Enquanto isso, continuo humanamente viva, na segurança da cela que legalmente me pertence, a contribuir para a cadeia de valor da humanidade.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Sons

Gestos, sorrisos, movimentos do corpo, emoções partilhadas. Pequenos momentos em que o entendimento é perfeito. Não quero conhecer mais do que vejo e oiço. São as minhas ilusões.
Como neste momento.

Pedras

As pedras têm a sua vida e eu a minha; quando passamos umas pelas outras se calhar interagimos, mas não são relações para cultivar e isto é difícil as pessoas perceberem: fazemos todos parte da vida e interagimos espontaneamente: as nossas relações são ocasionais, circunstanciais e de carácter não permanente. E garanto que as pedras me agradecem. Com que direito retiram-nas do seu habitat e as prendem, para "comunicar", "interagir"?!


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

De regresso ao leme

Estou de regresso, após ter andado quase 3 anos à deriva no cyberoceano. Poderia ter sido por uma boa causa, mas a verdade é que as últimas férias foram tão a sério que me esqueci das credenciais para aceder ao meu lado b... Mas lá consegui recuperar o leme!

E o que vos proponho, enquanto esperam pelo doce acordar da minha inspiração, é ouvirem este rapaz.